quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Amanhecer em cinzento

Em frente ao espelho, não me encontrei...
Perdendo até a noção do tempo, procurei,
Mas o reflexo surge quase transparente...
Sinto-me cansado, vazio e inconsequente.

O peso da responsabilidade transforma-me inibido,
E o poder de decisão revela-se rural e retraído;
Envenenado pelo atrito ao qual as verdades tropeçam;
Deslizando pelo desinteresse que as incertezas abraçam...

Desmedida necessidade do domínio total,
Veste-me de ansiedade com dimensão proporcional;
Mas o desconforto faz-me tremer desconcentrado...
Sinto-me inerte e vulnerável, mas inconformado.

Não estou sequer distante do destino objectivado;
Ramificações de um quotidiano inesperado,
Desafiam-me despertando dúvidas longínquas e dissolvidas,
Solidificando remotas alternativas, outrora esquecidas...

Rendido ao sonho, abstraio-me até da viagem;
Curiosamente, guardo, sem ver, e para mim, a grafia da paisagem;
Envolvendo-me optimista, com um aroma a triunfo sensorial...
Acordado, sentir-me-ia apenas frágil, exausto e superficial.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sazonalidades

A chuva cai robusta e densa, lá fora;
E o frio arrasta-se até muito perto,
Desconfortável mas quente, abraça-me agora;
Sinto-o apertado, porém, deserto;
E o bom tempo nem avisa, só demora...

Exausto, vou rastejando de forma desequilibrada;
Mas nem próximo, tão distante que já nem espero;
Petrifico só, na rotina gasta e cansada,
Enraízado à margem da vida mas nem desespero;
Vejo-a fluir e sossego à deriva desinteressada...

Deixo-me invadir, embora defensivo;
Pela essência que me consome e torna diferente;
Nem melhor, tão pouco pior, mas exclusivo;
Ofereço-me sincero, e na procura sou paciente;
Mas o bom tempo, que tarda, faz-me explusivo...

Já não é tão escuro e eu não adormeço,
Ainda vivo, sinto-me saudável e virtuoso;
Nublado optimismo, precipita o futuro que logo agradeço;
O céu está limpo e o dia desperta ambicioso,
E o mau tempo, simplesmente desconheço...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ela

Fechando os olhos, a imaginação revela propícia,
Uma silhueta indefinida, vítima da distância;
Sinto tão facilmente sua fragância,
Que me envolve numa desconhecida delícia,
Desvendando dela, desigual, delicada elegância.

Ao tacto, descubro-a, vagarosamente;
Passeio-lhe, pelo corpo, os meus dedos,
Absorvendo de si, a essência dos medos,
Filhos de uma solidão fria e insistente,
Que até a conhecer, me possuía os segredos.

Carente de um rosto, e carinho,
Invento-o genuíno, capaz de me estagnar;
Adivinho-o na mente, mas sem pensar...
Sinto-a, e deixo de me sentir sozinho;
Não a consigo ver, mas ambiciono, ao sonhar...

Vou desenhando, em traços resgados,
Sua textura de evidente suavidade;
Esperançosamente, vislumbro reciprocidade,
Dos sentimentos que nos traduzem apaixonados,
Capazes de eufemizar o conceito de eternidade...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Saudade de existir

Sinto o passado mais distante,
Sinto a saudade mais perto...
O "Hoje" nada me garante;
O "Passado" narrou-o de final aberto...

A saudade, magoa-me o corpo viril,
Mas eu gosto, e sinto-me mais vivo;
Sugere-se surrealmente verosímil,
A dor que me namora vingativo.

Continuo a sofrer, rasgado, ofendido,
Pelas lâminas que os pulsos acaricíam;
E gosto, abraço-as, convicto, desinibido;
Perplexo com as memórias que me trazem e delicíam.

O espontâneo faz-me deambular,
Numa incerteza que se evidencía,
Prometendo indecisão, até se apaixonar,
Pela bipolaridade que me denuncía.

A fragilidade da recordação, deixa-me apavorado;
Às suas lembranças, devo quem sou, e não quero esquecer...
Saudoso, rendo-me satisfeito às vivências do passado;
Só o que outrora fui, me permite ainda viver.