sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ela

Fechando os olhos, a imaginação revela propícia,
Uma silhueta indefinida, vítima da distância;
Sinto tão facilmente sua fragância,
Que me envolve numa desconhecida delícia,
Desvendando dela, desigual, delicada elegância.

Ao tacto, descubro-a, vagarosamente;
Passeio-lhe, pelo corpo, os meus dedos,
Absorvendo de si, a essência dos medos,
Filhos de uma solidão fria e insistente,
Que até a conhecer, me possuía os segredos.

Carente de um rosto, e carinho,
Invento-o genuíno, capaz de me estagnar;
Adivinho-o na mente, mas sem pensar...
Sinto-a, e deixo de me sentir sozinho;
Não a consigo ver, mas ambiciono, ao sonhar...

Vou desenhando, em traços resgados,
Sua textura de evidente suavidade;
Esperançosamente, vislumbro reciprocidade,
Dos sentimentos que nos traduzem apaixonados,
Capazes de eufemizar o conceito de eternidade...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Saudade de existir

Sinto o passado mais distante,
Sinto a saudade mais perto...
O "Hoje" nada me garante;
O "Passado" narrou-o de final aberto...

A saudade, magoa-me o corpo viril,
Mas eu gosto, e sinto-me mais vivo;
Sugere-se surrealmente verosímil,
A dor que me namora vingativo.

Continuo a sofrer, rasgado, ofendido,
Pelas lâminas que os pulsos acaricíam;
E gosto, abraço-as, convicto, desinibido;
Perplexo com as memórias que me trazem e delicíam.

O espontâneo faz-me deambular,
Numa incerteza que se evidencía,
Prometendo indecisão, até se apaixonar,
Pela bipolaridade que me denuncía.

A fragilidade da recordação, deixa-me apavorado;
Às suas lembranças, devo quem sou, e não quero esquecer...
Saudoso, rendo-me satisfeito às vivências do passado;
Só o que outrora fui, me permite ainda viver.